12 junho 2011

O PRAZER DAS COISAS SIMPLES – ou, A Mesa da Telefonia.

Talvez que hoje, nesta sociedade de consumo, isto já não faça sentido. Mas posso garantir-vos que a emoção, o prazer das coisas simples, modestas, era tão grande, como hoje quando nos endividamos para conseguir um bem e o recebemos em casa perante a estupefacção de toda a família.


Manuel, funcionário administrativo de uma importante empresa, estava muito satisfeito. Como tinha o Curso Comercial completo, conseguiu arranjar mais um emprego em horário pós-laboral – guarda-livros, como à época eram designados os contabilistas e com isso ganhar mais uns dinheiritos.


Pese embora este emprego lhe vir a cortar alguns fins-de-semana e o obrigar por vezes a seroar até à meia-noite, depois de já cansado, ter cumprido um dia de trabalho.


Manuel não se importava; o trabalhito extra era-lhe compensador e logo agora que finalmente tinha conseguido alugar uma boa casa no centro de Lisboa, ali para os lados da Igreja de Fátima, com cinco divisões, uma enorme cozinha, uma casa de banho completa, um lavabo social e ainda mais um quarto independente, que dava directo para a escada e não interferia com a privacidade da casa. Tudo isto por duzentos e cinquenta escudos.


O quarto independente era uma mais valia; em caso de necessidade poderia aluga-lo por cem, ou mesmo cento e vinte cinco escudos por mês, a um advogado que ali quisesse fazer escritório ou a um daqueles pracistas do Porto, que regularmente se deslocam a Lisboa para bater o mercado.


Manuel estava satisfeito. Por este andar poderia mais tarde, talvez, comprar um carrito em segunda mão para ir ao domingo, no verão, com a família à praia do Magoito.


O que ainda faltava lá em casa, era uma telefonia, para ouvir à noite na Emissora Nacional o Teatro das Comédias ou no Rádio Clube Português o programa do Comboio da Seis e Meia, apresentado por Igrejas Caeiro e pela Irene Velez ou ainda o Passatempo APA; isto já para não falar nas transmissões radiofónicas do campeonato Europeu de Hóquei em Patins, com os famosos Jesus Correia e Correia dos Santos, Edgar, Pompilio e tantos outros “heróis nacionais”.


Assim um belo dia Manuel lançou mão à obra. Nada sabia de carpintaria, mas, tinham-lhe oferecido uma bela caixa de madeira de pinho, com meia dúzia de garrafas de vinho do Porto.


Com o auxílio de uma publicação Americana, a Mecânica Popular, nessa altura ainda escrita em Inglês, um serrote cego e já sem trava, um martelo cuja cabeça balançava perigosamente no cabo e uma grosa, Manuel desmanchou a caixa do vinho do Porto, marcou a madeira e começou a cortar as tábuas para fazer uma mesa onde colocar a telefonia que pensava comprar.

Passaram alguns fins-de-semana e Manuel com bolhas nas mãos deu por findo o trabalho. Escureceu a madeira, lixou tudo muito bem, tendo o cuidado de adoçar os ângulos mais agressivos e por fim aplicou-lhe uma camada de verniz.

Em nada esta obra se distinguia das outras de fabrico profissional, que estavam à venda por bom preço nas lojas dos bairros da cidade, não fora o caso de, para quem espreitasse por baixo, poder ver ainda parte das letras gravadas a fogo onde se adivinhava o que restava das palavras cortadas – Porto Sandman.


Passaram alguns dias e uma noite, Manuel chegou a casa transportando uma pequena caixa de cartão atada com um cordel; a embalagem não deixava dúvida quanto ao conteúdo, pois ostentava no exterior a palavra Philips.


Nessa noite jantamos tarde, se é que jantamos, o jantar esfriou na mesa pois todas as atenções se voltaram para a caixa.


Depois de alguns preparativos e de Manuel ser obrigado com um fio a improvisar uma antena que colocou fora da janela, chegaram aos nossos ouvidos as palavras radiofónicas dos locutores – A Emissora Nacional tem o prazer de apresentar… pausa… Teatro das Comédias … A Paixão de Jane Eyre uma obra de Charlotte Bronte … etc. – Manuel continuou a rodar o botão da sintonia; de passagem ainda se ouviu um outro locutor dizendo: - Rádio Clube Português a trabalhar com os seus emissores de Parede – Portugal…


Na sala a família reunida em volta do aparelho já havia esquecido o jantar, e o momento mais alto da noite foi quando a voz de Artur Agostinho vinda daquela caixa hipnótica ecoou por todo o bairro, por toda a Lisboa… goooolo! … gooolo de Portugal … aos dez minutos da primeira parte numa magnifica jogada de Jesus Correia e Correia dos Santos Portugal ganha à Espanha por duas bolas a zero…




Eu vi crescer o Besnico di Roma


A vida sorrio a Manuel, mais tarde foi viver para a avenida de Roma, comprou um carro novo, viajou pelo estrangeiro e teve alguns negócios, mas nem quando comprámos a nossa primeira televisão a cores experimentámos uma emoção tão forte, como a do momento em que Manuel colocou o pequeno rádio em cima da mesa por ele feita com tábuas de um caixote de vinho do Porto.

Em memória de meu pai.
Fevereiro de 2011
Besnico di Roma

4 Comments:

At 13 junho, 2011 00:07, Blogger Maria said...

Não acredito em coincidências. Mas juro que hoje, quando vinha de jantar na Nazaré, lembrei-me de ti ao passar por S. Martinho... e pensei "que será feito do Besnico?"
Pois aqui tenho a resposta. Vivo e com saúde!

Vou ler-te. Beijos.

 
At 13 junho, 2011 00:14, Blogger Maria said...

Bonito e ternurento o teu texto, Besnico.
A minha avó tinha uma 'coisa' igual a esta, agora em poder do meu irmão...

:((

 
At 15 junho, 2011 15:58, Blogger Olinda P. Gil © said...

Que bom saber notícias suas!

 
At 26 outubro, 2011 17:01, Anonymous António said...

Besnico!! Tudo bem consigo? Ainda se recorda do nosso café em São Pedro de Moel? No Bambi!! diga alguma coisa homem... abraço.

 

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